Noticias

| 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007 | 2006 | 2005 | 2004 |

 

851.jpg

02/07/2005
MATÉRIA PARA O VITRINE

Tweet

Leia a matéria que o Michel escreveu pro site canal “Vitrine” do EM&T, convidado pela segunda vez, falando sobre influências e dando várias dicas de estudo. Para ler a matéria no site "Vitrine", clique aqui.

TRABALHANDO AS INFLUÊNCIAS

A “Base”

Considero primordial a seguinte disposição para a constante evolução do músico: servir ao som, estar ali pra somar. Seja em qual for a situação, não se preocupe só com você. Tente se colocar da melhor maneira na música, assim você vai tocar cada vez melhor! Não fique só esperando a hora do seu solo chegar, por exemplo. Outra: saiba acompanhar, acompanhe como você gostaria de ser acompanhado (é o princípio cristão, não é?). Pense agora, também, sobre esses itens:

Se, por exemplo, você é guitarrista e só se baseia em outros guitarristas, acaba virando uma cópia mal feita. O músico não precisa tocar coisas de outro para ser reconhecido. Não tenha medo de buscar o que você acredita; existem caras que querem tocar as frases que os outros já tocaram apenas por reconhecimento, como se estivessem dizendo: “Viu? Eu também consigo!!!”. Tá cheio disso por aí... Não seja mais um;
Ao tocar, a condição para que “algo aconteça” é ouvir quem está tocando com você. Só aí, já haverá um grande crescimento musical: você vai aprender muito sobre os outros instrumentos, só pelo fato de ouví-los (ou, se você tem facilidade, toque-os também);
Para se desenvolver como improvisador e (consequentemente) compositor, você deve perder o medo de arriscar. Gosto dessa máxima: “O improvisador não tem medo de errar, ele faz o erro virar música!”. Para tal, penso que deve ser feito um “trabalho de base” que consiste em: conhecer ao máximo o seu instrumento (ao conhecer acordes, escalas, arpejos em todos os tons e regiões do seu instrumento, as coisas começam a dar mais certo; seus dedos vão cada vez mais para o lugar que você queria que eles fossem...); saber tocar no tempo (desenvolver e enriquecer sua rítmica); e conhecer tantas músicas quanto se puder conhecer (ter repertório e expandi-lo cada vez mais).

Se, por exemplo o cara não sabe improvisar sobre o acorde maior com sétima maior em dois tons diferentes, ele deve parar e começar a praticar, porque certamente isso vai fazer falta! A base, a meu ver, não é só saber afinar o “bend” e tocar uma pentatônica... O buraco é mais embaixo! Depois de conquistar essa base sólida, a fluência começa a aparecer; aí começa a maravilhosa aventura do improviso: 'pular do avião' e ir de encontro ao desconhecido, tendo como 'pára-quedas' a sua “base”, ou seja, tocar relaxado e realmente improvisar.

Obsessão temporária

Tem épocas em que você “gruda” em um músico com o qual se identifica pra esmiuçar tudo que o cara toca. Isso é legal, se você souber a hora de parar. Senão você vira um fã, um clone, um ‘cover’. E isso é muito deprimente. Tem caras que ouviram, por exemplo, Pat Metheny durante anos, e hoje não conseguem se livrar dos ‘tiques’, dos ‘licks’, e até dos vícios do original. Aí, o que acontece? Você ouve esse imitador e, depois de duas notas, vai dizer “esse cara tá querendo enganar a quem?”. Então, como escapar dessa? Tenho duas sugestões:

1) Ouvir vários tipos de sons. Aí você terá uma noção de que a música é muito, mas muito mais vasta do que aquilo que está te prendendo;
2) Tocar o máximo possível: faz com que sua música aflore, deixando as suas influências nos devidos lugares. Toque o quanto puder! Isso só traz benefícios: quando estiver mal, toque! Quando estiver com uma dúvida, toque! Quando achar que o mundo é uma droga, toque!!! Toque: tocar é o que há!

Saber Ouvir

Quando comecei a ouvir Jazz e me interessar por harmonia e ritmos diferentes, comecei a transcrever solos. Tirava e depois tocava junto até soar uníssono. Em seguida, escrevia para treinar a escrita e a leitura musical. Isso me serviu muito numa fase, a de saber como eram formadas/construídas certas frases que eu ouvia dos pianistas, saxofonistas, enfim, de outros instrumentistas. Hoje, acredito que o simples fato de ouvir boa música com toda a atenção, curtindo, faz você “sacar” o espírito do som. Não se apegue a um elemento só como “o solo”, ou “as frases”, ou “o timbre”... Ouça o todo, o som! Improvisar é realmente captar o clima do momento e tocar o que a música pede. Tem a ver com ouvir e sentir, não com pensar “vou tocar a escala ‘x ao cubo’..”. Ao ter disciplina para realmente ouvir, você acaba, automaticamente, melhorando sua relação com o que está tocando na hora, isto é, fica mais difícil de perder o sentido do improviso, da história que está contando. Duas dicas:

1) Pense que o solo pode ser uma continuação do tema (lembre-se do termo “tema e variações”);
2) Grave você tocando e ouça como se fosse outro cara, pra ver se você gosta. Isso ajuda muito.

A música é a arte pra se ouvir e sentir, não é a arte do “eu acho” ou dos “conceitos”. Enquanto outras pessoas perdem energia falando e falando, fazendo “cara de gênio” pra falar de “conceitos” e etc; você toca e ouve o que tocou, é muito mais proveitoso.

Influências

Só para citar alguns músicos que me chocaram e me influenciaram em várias épocas:

Jimi Hendrix, Black Sabbath e Led Zeppelin: meu irmão me apresentou esses sons e senti essa “pressão” aos 08 anos de idade. Me lembro até hoje do impacto;
Miles Davis: o príncipe do jazz! Se você ouvir qualquer música, qualquer fase do trabalho dele, vai sentir a mágica, a força musical. E, ainda, ouvir sempre junto dele músicos que influenciaram gerações (e alguns outros que só são legais de se ouvir se for na época que tocaram com o Miles);
Stravinsky: Profundidade absoluta. Um homem em comunhão com a Divina Música! Assim como Bach, Ravel, Beethoven, Debussy, Villa-Lobos e muitos outros. Elevação!;
Wayne Shorter: composições ‘do além’ e uma liberdade ao tocar que eu sempre vou agradecer por poder ter ouvido e sentido;
John Coltrane: a luta, a perseverança numa idéia (como todos os grandes improvisadores) e o virtuosismo maravilhoso; depois dele o saxofone parou! Você ouve e fica com vontade de tocar;
Tom Jobim, Cartola, Nelson Cavaquinho, João Donato, Gershwin: Essência da melodia, simplicidade que os leva à imortalidade;
Heraldo do Monte, Arismar do Espírito Santo: Sempre se superando... Inspiradores!

Citei apenas alguns, é claro (isso não é um ranking ou uma lista idiota do tipo “Os 10 mais”). Mas penso que, ao descrever o que foi importante pra mim, eu posso despertar algum interesse em você para ouvir esses artistas, descobrindo coisas diferentes e abrindo a mente. Enfim, a influência como inspiração é uma coisa benéfica. Sempre é bom ouvir, pesquisar, conhecer. Conheça os outros, mas, principalmente, busque conhecer a você mesmo, tocando!

Saúde, Paz e Música!!! Muito obrigado e a gente se vê!

Michel Leme

Visite o site www.michelleme.com

VoltarHome