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13/06/2005
ENTREVISTA

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Michel Leme - 100 Segredos

Michel Leme lança seu mais novo trabalho, "Quarteto". Gravado em maio de 2004 no estúdio Haick, o CD conta com a participação dos músicos Walmir Gil (trompete e fluegelhorn), Sérgio Frigério (baixo) e Rodrigo Braz (bateria e percussão).

 “Quarteto” contém 10 faixas, todas de autoria de Michel, que abrange uma variedade muito grande de ritmos e estilos, dando ênfase à música brasileira e ao jazz.

 Quem acompanha o trabalho desse músico paulista sabe que ele já passou por diversas fases musicais, tendo influências bastante diversificadas e claramente demonstradas nas músicas desse novo disco.

 A música “100 Segredos” abusa de improvisos e faz uma fusão interessante do jazz com a música brasileira. Já na faixa solo, chamada “Mística”, homenagem de Michel à sua esposa, o guitarrista esbanja técnica e, ao mesmo tempo, demonstra uma musicalidade invejável, resultado de sua vasta experiência. Podemos citar também “Plêiades”, em que Walmir Gil arrasa em seu improviso enquanto Rodrigo Braz consegue ser sutil e ao mesmo tempo agressivo, sem tirar o destaque dos demais músicos, que utilizam muito bem sua dinâmica.

Um trabalho bastante animado, contendo melodias suaves e também pegadas fortes. O grande entrosamento dos músicos é outro ponto forte desse disco que agradará até os mais exigentes ouvidos.

O CD Quarteto pode ser adquirido nas lojas do ramo ou pelo link: CD

Em entrevistas já publicadas, você diz não gostar de rótulos musicais, que acabam limitando o artista. No CD "Quarteto", podemos observar nitidamente essa sua linha de raciocínio. Comente sobre isso.

Em primeiro lugar, muito obrigado pela oportunidade de poder falar sobre meu trabalho e por sua iniciativa de divulgar a música instrumental, a música do espírito, que vai totalmente contra a maré de anti-música feita com objetivos puramente materialistas de hoje em dia. Parabéns!

Respondendo a pergunta: comecei ouvindo música de várias fontes: a música regional com meu avô, música clássica através do meu pai, e rock, através do meu irmão. A música que faço tem reflexos disso, minha base foi essa. Depois, toquei em baile, toquei rock, mpb, jazz, e hoje toco com pessoas que nunca sonhei em tocar! A música vem das experiências, e elas têm sido bem diversas. 

Dentro dessa diversidade, sou naturalmente contra colocar um artista dentro de uma prateleira, enclausurá-lo dentro de um estilo. Algumas pessoas falam por aí que toco fusion, outras acham que toco free jazz, e por aí vai. É pura ignorância. A pessoa nem se dá ao trabalho de ouvir o que estou fazendo agora para se situar, tem na cabeça o som que gravei, por exemplo, com o Mr. Motaba em 1997! Isso é preguiça, ignorância, ou um pouco dos dois.

Acredito na música do momento, mesmo na hora de gravar um CD. Não premedito nada nos solos, toco o que acredito; portanto, se eu me colocar dentro de uma categoria ou estilo, estarei traindo essa idéia de liberdade ao tocar. Prefiro servir à música a servir a qualquer ‘cartilha’.  

Um fator interessante nesse seu novo CD é a liberdade de expressão de todos os músicos envolvidos no trabalho, deixando o disco bastante voltado para as composições, transformando-o, assim, em um disco voltado para um público mais abrangente. Esse foi o resultado idealizado? Como foi o envolvimento com os músicos em estúdio?

A assimilação das minhas composições foi um processo. Fizemos dois ensaios no final de 2003 e, a partir daí, tocamos, todos os sábados, em um bar em São Paulo, o repertório que seria gravado. Experimentamos várias coisas nas músicas e, na hora de gravar, simplesmente deixamos as músicas com menos solistas. É meio chato você ouvir um CD em que todas as músicas têm improviso de todos os músicos do grupo. Não quis cair nessa, quis fazer um CD agradável de se ouvir, tanto é que são dez músicas em uma hora de som e as pessoas me falam: “Ué, já acabou?”

Outro fator que colaborou para isso foi ter o Walmir Gil (trompete) fazendo as melodias na maioria das músicas. Em outras, eu fazia uma parte da melodia pra variar o timbre, ou fazia contracantos, costurando a melodia principal. Enfim, essa formação permite que as composições sejam apresentadas de um modo mais rico do que com um trio com guitarra, baixo e bateria.

Outra coisa que colabora para o disco ficar mais agradável, acredito, é fazer os solos realmente improvisados, aí a música guia você, fazendo com que tudo fique do tamanho certo, nem a mais, nem a menos. Ao fazer o mesmo solo em todas as músicas, o trabalho fica chato. O lance é relaxar, ouvir o que está acontecendo e tocar.

Existem alguns fatores nas composições que deixam uma característica experimental, como por exemplo a faixa “Tenha Clama”, em que Sérgio Frigério utiliza-se de uma caixa de fósforos para fazer a percussão. Fale sobre pontos interessantes do CD.

Compus essa música em 2003 e cheguei a tocá-la com o Umdoistrio (grupo com Cuca Teixeira e Thiago do Espírito Santo, que gravou um CD em 2002). Ao gravá-la no “Quarteto”, tive a idéia de ser acompanhado apenas por uma caixa de fósforos, o instrumento que possui mais ‘cara de improviso’ do samba ( as pessoas falam: "Não tem nenhum instrumento? Vai na caixinha de fósforos mesmo!").

Outra ponto importante é o modo como a música foi apresentada: primeiro  improvisei sobre a forma do tema inteiro e só então apresentei a melodia.

Esse álbum foi registrado em 11 horas, ao vivo no estúdio. Você usou sua Gibson 175 nas gravações, juntamente com amplificadores meteoro e pedais Onerr. Explique um pouco mais do processo de gravação e como foram ligados os equipamentos.

Estávamos com as músicas na cabeça, era só uma questão de sentir o clima, gravar e escolher o take. Foram onze horas de gravação divididas em dois dias. O Sandro Haick (parceiro em vários outros trabalhos e maravilhoso músico multiinstrumentista) o técnico, fez maravilhas. A masterização foi na Classic Master, com o Carlinhos Freitas, que é muito bom, e fez um ótimo trabalho.

Usei dois amplificadores Meteoro, modelo V8, com 25W, valvulados, ligados em estéreo através de um reverb digital da Onerr (que me deu alguns pedais), além de um Digital Delay (também da Onerr) usado na faixa “Fino Trato”. Em duas outras músicas (“Tenha Calma” e “Mística”) microfonamos a guitarra e adicionamos só um pouco de um canal em linha, para dar uma ‘engordada’. Isso já foi feito pelo Joe Pass e Jim Hall, entre outros. Fica um som lindo e inspirador.

Enfim, foi um set muito simples. Prefiro assim porque a guitarra acústica já tem um timbre lindo, não é preciso processar o som. Usei  minha Gibson ES-175,1979, comprada em 2000. Falo a marca mais para informação mesmo, porque tampei o ‘Gibson’ com um adesivo vermelho, e explico o por quê: mandei um e-mail para o representante da marca aqui no Brasil dizendo que já estava usando Gibson e perguntando se não queriam desenvolver algum trabalho comigo.

Bem, eles não se dignaram a responder meu e-mail! Isso é uma mania de grandeza muito grande, ao meu ver. Mas tudo bem, cada um com sua loucura, mas não faço mais propaganda de graça.

 Digo isso mais para os futuros profissionais saberem como são as coisas, para não ficarem com a ilusão de que os representantes de marcas estrangeiras aqui no Brasil valorizam o músico. 

Os temas do CD são bastante suaves, enquanto que seus improvisos possuem uma pegada mais “nervosa” e com frases rápidas. Fale um pouco de sua linha de raciocínio para gravar as faixas.

O raciocínio não está presente no caso, não da maneira que nos faz  pensar em teorias e números. Ao tocar, não penso “estou usando a escala x ou y” ou “estou construindo meu solo através de algo que fulano falou...” O que acontece é ouvir e tocar! São reações, reflexos. Não consigo explicar a música.

Consigo explicar coisas relacionadas a ela, mas não a entidade em si. Quanto aos temas serem calmos e os solos nervosos:  sempre gostei de tocar rápido, confesso! Mas, cada vez mais, tento não fazer isso de forma gratuita, para "aparecer” ou por “atitude”. Eu toco assim! Procuro relacionar as coisas, mesmo em meio a um turbilhão de notas.

Procuro não perder o sentido da música: toco, ouço e reajo, é um ciclo. Acho o virtuosismo uma coisa bela. Quando ouço concertos para piano, violino ou qualquer outro instrumento, acho lindo! Quando você ouve o “Miles Davis Quintet” na formação com John Coltrane no sax, por exemplo, os temas têm poucas notas, mas Coltrane detona! Como se explica isso? Eu não consigo.

Só consigo sentir a música e a honestidade que está por trás. Com poucas ou muitas notas, se não for honesto, não me engana! Acho que devemos ouvir música com prazer, sem analisar se há muitas ou poucas notas; mas curtindo, como criança, ou seja, ou está legal ou não! Um grande abraço a todos do “Tocando Guitarra” e a você, internauta.

Fiquem com Deus e a gente se vê em algum som por aí!

Para ver a entrevista no site Tocando Guitarra, clique aqui.

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